Desde quando pus na cabeça que queria morar
fora do Brasil eu quis morar na Europa. Sim, Europa. Podia ser qualquer país,
mas eu nutria aquela vontade de acordar, sair na rua e dar de cara com um
castelo, com uma brisa de outono carregada de folhas marrons e amarelas, viajar
de trem nos finais de semana, comer boa comida e tomar bons vinhos sempre. Daí
a minha chance foi de ir pros EUA. Eu nunca gostei muito de lá. Tá, eu tinha o sonho de ir pra Disney até os meus 12 anos. Mas depois disso, a terra do tio
Sam nunca me chamou a atenção a não ser pelo seu famoso perfil capitalista
sanguinário, que só me fazia enojar. Apesar disso, em nenhum momento torci o
nariz de ser mandada pra lá. Sério. Eu encarei como mais um país que eu deveria
conhecer para colocar no meu diário e fui com um sorriso de orelha a orelha.
Ainda me lembro de que a primeira coisa que vi
de dentro do avião foi um tapete de luzes quentes, perfeitamente assentado e
simétrico na região oeste da cidade. Aquele lugar não tinha nenhum morro.
Nenhunzinho. Nem uma subidinha. O avião desceu um pouquinho e já pude avistar
montes e montes brancos, encobrindo os terrenos vazios na região próxima ao
aeroporto. Essa foi a primeira Chicago que vi: branca e reluzente. Era março,
às 5h30 da manhã. A primeira coisa que quis fazer ao passar pela imigração foi
correr pras portas automáticas de vidro e sentir aquela coisa branquinha que eu
nunca tinha visto na vida. Corri. Até a porta abrir e eu sentir o vento congelando
meu rosto e meu peito, coberto com uma camiseta fina de manga longa e um casaco
robusto pro inverno de São Paulo. Corri no banheiro e me encapotei de blusas,
agora sim! Eu estava pronta!
Chicago debaixo de neve é outra Chicago. Aquele
inverno foi longo. Foi inverno inverno e primavera inverno. As flores chegaram
debaixo de nevasca. Eu quase congelei meus dedos tentando fotografar o cair da
tarde por detrás do congelado lago Michigan. E aliás, o semi congelamento de
dedos e mãos, acompanhado pela necessidade de entrar correndo pelos corredores
aquecidos da Loyola University valeu a pena. Que vista...uma das mais belas que
me recordo de lá.
O lago Michigan congelado, na orla da Loyola Beach, atrás da Loyola University.
Eu morava na Loyola Ave, era bem de frente à
Loyola University, no extremo norte de Chicago, a poucas estações de Evanston,
já subúrbio de Chicago, a Chicagoland. Eu adorava aquele estúdio. Era pequeno,
mas grande em comparação com os novos apartamentos daqui. 312 – 3* andar, sem
elevador, corredor “d’O Iluminado”, velho carpete marrom avermelhado, cheiro de
madeira velha, escadas nos fundos, bem de frente à Loyola CTA Station, 24 horas
por dia. Num raio de 1 km era possível encontrar Giordano’s, McDonalds,
Popeye’s, Starbucks, Five Guys, Dunkin Donuts, T-Mobile, CVS, Wallgreens,
7eleven.
Vista da Loyola Station, na red line, a neve já derretida.
Ainda com a cidade coberta de neve...
Vista da janela do estúdio, pra W Loyola Ave.
Um terreno na Sheridan Road.
Orla da Lake Shore Drive, neve já derretida, árvores secas...
Chicago River
Eu costumava andar pelas ruas de trás da
Loyola, às vezes correr ouvindo música e foi por ali que encontrei o bairro
perfeito. Rogers Park é o distrito das artes do norte de Chicago. Intervenções
artísticas a céu aberto, ponto de compartilhamento de livros, cafés, pequenos
teatros, bares de jazz e a lavanderia. Eu troquei de lavanderia só pra ir
andando pela Glenwood e avistar as novas esculturas e grafites na parede. Às
vezes até ouvir de gaiato um ensaio de algum grupo de blues ou jazz por dentro
de construções que pareciam não ter portas...e nem isolamento acústico.










Por qualquer lugar que eu andasse, me sentia
dentro de um filme. Era uma sensação estranha e boa. Apesar de sozinha, pois
grande parte das minhas descobertas de Chicago foi só, nunca senti aquela solidão, tudo foi solitude. Eu me
sentia parte dali, das ruas de construções antigas, às vezes ruínas, das
paredes descascadas na influência européia, das lojas de discos, sebos e
brechós em cada esquina, das pessoas estranhas no trem, eu era uma delas,
tomando chocolate quente na tentativa de esquentar a garganta e o nariz naquele
inverno brabo.
The Alley, na Belmont Ave, altura da Belmont Station, na red e brown line.
Eu gostava daquilo. Mais do que verão. Eu me
lembro da sensação de correr pras pequenas estações de aquecimento nas
plataformas das estações de trem, corpo tremendo mesmo com uma blusa especial
de montanhismo, casaco gigante e luvas. Os dedos gelavam mesmo com luvas. Era
um freezer gigante. Um belo freezer gigante. Dentre as belas memórias que tenho
do norte era quando o trem passava pelo Graceland Cemetery, em direção ao
centro da cidade, já na altura da Sheridan Station. Era um campo coberto de
neve cheio de árvores peladas. Era sombrio, mas lindo e grande...eu grudava os
olhos na janela do trem e ia acompanhando até ele se perder de vista e o trem
ir ao subterrâneo para entrar no subway do loop, o centro de Chicago, com a
famosa arquitetura. Essa era outra coisa legal: a linha vermelha sair e entrar
no loop. Sentido norte, quando ele submergia, parecia a luz no fim do túnel. E
sentido centro, eu sempre me sentia vivendo o High Fidelity, onde em uma das cenas iniciais, John Cusack entra na
purple line e de repente mostra o trem entrando no túnel. Mentira! A purple
line nem entra no túnel! Ela é toda elevada. Aquela cena de entrar do túnel se
repetia todos os dias pra mim na red line, quando eu ia trabalhar. Aliás, a CTA
ainda é um dos meus grande amores. Andar de trem em Chicago era até um
passatempo. Em sua maioria elevado, dá pra curtir umas cenas impagáveis, como
na pink line, onde todos os dias eu via o sol bater no letreiro brilhante do
Chicago Sun Times...ou na brown line, onde era possível ver os prédios famosos de estacionamento em
forma arredondada de sei lá o que, que até hoje eu não sei o nome, da capa do
disco do Wilco, as pontes elevadas e uma bela parte do curso do Chicago River.
Ahhhh, Chicago...why so gorgeous? Foi o que eu disse uma vez pra um rapazinho
que morava lá perto de casa: “Yep, this is the right word. Gorgeous”, confirmou
o menino de Ottawa que estudava filosofia na faculdade ali na frente.

Interseccao dos trilhos no loop
Estacao da brown line no loop, vista da passagem para a troca de plataformas
Jackson Station na red line
A luz no fim do túnel, na red line, de dentro do trem.
O prédio do Chicago Sun Times, visto de dentro do trem da pink line.
Chicago River, um dos prédios da Marina City (dei um google) e as pontes.
No fim, uma das pontes elevadas.
O meu primeiro lugar favorito de Chicago foi o
House of Blues. Eu costumava procurar na internet lugares de jazz e blues para
conhecer em Chicago, pesquisar os melhores preços e as atrações do dia para
escolher. O primeiro lugar que aparece no google é o House of Blues. Que hoje
em dia nem vive só de Blues, e sim de Rock. De fato, tem um restaurante lá
dentro com música ao vivo, independente dos shows principais e lá sim, acho que
só toca Blues. Acontece que eu fui atrás do House of Blues, que fica bem
embaixo e atrás daqueles dois prédios gêmeos que eu comentei da capa do Wilco.
Eu cheguei bem em frente a um lugar quadrado, sem cores com um letreiro
mixuruca escrito em azul e com algumas luzes queimadas. Olhei, parei...Caramba,
quanta publicidade pra um lugar normal, entrei. Quase caí pra trás. Cruzando os
dois lances de portas de madeira eu embarquei num mundo fora do real. Luzes
azuis, rosas, laranjas, uma decoração que eu não sei se é meio indie, meio
psicodélica, meio indescritível, fizeram meus olhos se guiarem pro alto de uma
entrada que mais parecia um altar com os dizeres num pedestal “In blues we
trust”. Depois disso todos os meus amigos que foram me visitar conheceram o templo
do blues no coração da cidade dos ventos.

Entrada do restaurante e a placa "in blues we trust", dentro do House of Blues
Escada para o salao do palco principal do House of Blues
Canto da lojinha do House of Blues, roupas, discos, pôsteres, bugigangas de souvenir
Cidade dos ventos. Teve uma vez que eu voltei
pra casa correndo porque eu achei que ia ser carregada pelo vento. Sério. E nem
teve alerta de tufão, furacão, twister, ou sei lá o que.
Depois, o meu lugar favorito de Chicago foi o
Navy Pier. O Navy Pier é um lugar manjado pros turistas e manjado em qqr cidade
grande dos EUA, pois todas tem um píer onde as pessoas vão passear, tomar
sorvete, jantar, namorar, enfim... Eu gostava de lá pq era um píer enorme com
um teatro, "Shakespeare Theatre", a rua da Docas, embarcações e às suas costas: metade do skyline diante dos seus olhos, bem perto. Pensa...era só a distância percorrida no píer. Eram milhares de luzes reluzindo bem na sua cara, do lado de um carrossel e uma roda gigante que te faziam ver mais do alto aquela constelação que Chicago vira quando o sol se põe.
Roda gigante e chapéu mexicano do parque dentro do Navy Pier
Vista de cima, no passeio da roda gigante do Navy Pier
Parque do Navy Pier
Meio skyline de Chicago, visto da orla sul do Navy Pier
Shakespeare Theater ao fundo
Meio skyline...
Eu e a Kath com o skyline ao fundo
Com o decorrer dos meses foi difícil escolher
um lugar favorito, ao mesmo tempo eu sempre me enfiava nos buracos mais
perdidos da cidade para tirar fotos diferentes. Nem sempre dava certo, mas foi
aí que eu criei pra mim o Chicago Secret Treasures. Foi no meu último mês
morando lá. Eu já conhecia boa parte da cidade e aproveitei as últimas semanas,
antes de embarcar num mochilão para costa leste, para desbravar minha querida
windy second gorgeous city. Essas não são dicas de turismo...that’s all
about the experience, about feeling and about what destiny is gonna show you.
1 - Pilsen – O bairro
mais cool de Chicago
Se Rogers Park é o distrito das artes do norte,
Pilsen é o mega distrito das artes do baixo oeste. Além de ser enorme (dá pra
perder uma tarde toda só percorrendo suas galerias), com uma super influência
mexicana, é composto de galerias coloridas dos mais variados artistas e
influências. Dá pra achar todo tipo de pintura e grafite, cantos pra comer
simples de comida caseira, brechós na rua, organizados pela vizinhança e até
casa de chefão de gangue, daquelas com o sobrenome estampado na porta. Indo
sentido downtown a gente chega num mural gigantesco de comprido. É o muro de proteção
dos trilhos elevados de trem da Amtrak e de trens de carga, espaço perfeito
pros grafiteiros. Um tanto quanto abandonado, um tanto quanto carregado de
arte.
Pra aquecer o poste?
Grafite no mural dos trilhos do trem
Grafite e um trem de carga nos trilhos
Grafite e um trem de carga nos trilhos
Sobrenome no portao de uma das casas em Pisen
2 - Bookman’s Corner –
Um sebo peculiar / Reckless Records – A melhor loja de discos
Existem muitos sebos, lojas de discos usados e
brechós em Chicago. Se tem uma coisa que eu aprendi a gostar foi desse tipo de
loja e dos antiques, é claro. Sempre curti os daqui de São Paulo, não seria
diferente por lá, com a diferença de que é muito comum vc comprar usados por lá, então vc encontra coisas muito legais, baratas e de quebra se diverte
com o tanto de tralha diferente que vc é capaz de encontrar.
Bookman’s Corner é um mini sebo que não comporta
sua quantidade de livros. Numa esquina perdida da Clark Street, perto da
Wellington Station na brown line é possível avistar uma vitrine bagunçada,
cheia de bugigangas espalhadas, sem um pingo de noção de ordem. O dono velho e ranheta, te recebe com alguns
avisos escritos de canetão logo na entrada: “no stories about your book
proudess unless you have 3 weeks to listen mine”, “no photographs”, “no cellphones”...só faltava
um “shut up and get outta here”. É claro
que eu tirei algumas fotos escondidas, pq eu tinha que guardar isso pra contar
pros meus filhos! E ainda bem que fiz isso, pq depois de ter tirado, pedi ao dono
pra tirar uma foto do aviso e com uma cara rabugenta que me deu até medo ele me
deu um em alto e em bom som “No”. E não era de se esperar? O legal desse lugar,
além desse velho figurão, é que vc nunca vai encontrar o livro que vc quer.
Primeiro pq os livros não estão guardados em ordem, eles mal respeitam uma
espécie de divisão por temas, além de existir pilhas e pilhas que quase alcançam o
teto sem indicação nenhuma de tema. Pronto! Quer ler um livro e não sabe de
quê? Lá vc descobre o que vc quer. Ou descobre oq vc nem sabia que queria.



Prateleiras da Bookman's Corner, essa última foto consegui na internet (coisa rara), as outras tirei na surdina.
A Reckless Records é uma loja de discos
daquelas clássicas. Seria minha #2 se a Top 5 Records (Vide High Fidelity), existisse. Sim! Eu fui
atrás dela! Não tinha um mísero site na internet que me falasse onde essa
bendita ficava. Até eu encontrar numa das cenas a placa da esquina =) Milwaukee
& Honore. Lembro que foi num sábado, fui feliz e contente pro Wicker Park,
um dos meus bairros favoritos também, diga-se de passagem, em busca da minha
Top 5 Records e encontrei um tapume preto que tampava o lugar onde montaram o
set de filmagens. Tristonha, meu coração se encheu de alegria quando, já sem esperança, olhei pra
Honore Street, onde algumas cenas do filme foram gravadas também, como quando
o John Cusack e o Jack Black saem correndo atrás dos meninos que roubam uns
discos na loja. Foi lá...com o trem da blue line passando em cima, naquela
estrutura velha e encardida da CTA. De brinde, a parte de cima da loja, intacta.
Como andar por ali e não se sentir dentro de um filme?

Placa torta indicando Milwaukee & Honore St, no Wicker Park
Parte de cima da Top 5 Records, como a do filme e tapume
preto em baixo, tampando o lugar usado como set de filmagens
Honore St, onde Jack Black e John Cusack gravaram a cena com os meninos que
roubaram os discos da loja, ao fundo, os trilhos da CTA, blue line.
Voltei um pouco em direção à Damen Station,
ainda na Milwaukee, e encontrei a Reckless Records, nascida no mesmo ano que eu
(1989). Ampla, organizada. O oposta da Bookman’s Corner, mas carregada de
histórias únicas e experiências em cada vinil. Por isso eu amo coisas usadas.
Sabe o que é pegar um disco, ouvir o som e pensar quantas mais pessoas ouviram não
só aquela mesma música, mas aquela mesma unidade de música? o que elas
pensaram, o que elas sentiram, quais foram as ocasiões. Sejam boas ou ruins, são
experiências de vida. É o que me encanta nesse tipo de comércio, que nem de
comércio deveria ser chamado. Nesta loja de discos eu encontrei muitas
raridades e muitos orgulhos (Elis Regina, Caetano Veloso, Milton Nascimento!!).
A melhor parte era poder ir pro Wicker Park e se perder no tempo de voltar pra
casa, só escutando os discos nos headphones surrados de potência incrível. Por
vezes ouvi os discos da Elis ou um samba qualquer tocar no som ambiente da
loja. Aí a vontade era sair dizendo pra todo mundo: “olha, olha! Isso é do meu
país...é lindo, né?!”

Sessoes de cowntry & western, bluegrass e folk music na Reckless Records
Vinil da Elis Regina na sessao de musica brasileira na Reckless Records
3 - Puppet Bike – O teatro
de marionetes
O que eu mais gosto é de andar na rua e encontrar
alguém ou alguma coisa que me chame a atenção e me tire do meu caminho. Dentre
os inúmeros grandes artistas de rua de Chicago, trompetistas, guitarristas e
até bateristas, sem dúvida encontrar a Puppet Bike foi especial.
Primeiro porque o cara teve a idéia genial de montar um palquinho de marionetes
numa caixa em cima da sua bicicleta. Vira e mexe eu encontrava esse cara pelo
loop. E ele era tão genial que até website ele tem (puppetbike.com), com o
perfil dos personagens das suas histórias e tudo mais. Nesse site descobri que
eles aparecem até em filme (Actually Adieu My Love – não assisti, mas
pretendo). A trupe é formada por um gato caolho, um cachorro cowboy guru de
tudo, um macaco instrutor de ioga, um coelho modelo de chapéus e um tigre ator
de peças de Shakespeare. Tips? Jamais irão pagar o suficiente.
Puppet Bike numa das ruas do loop, downtown Chicago
4 - Apollo Theatre – A hidden gem
Chicago também é uma cidade de teatros. Sério!
Tem teatro pra todo lado. E uma parte do loop foi nomeada o distrito dos teatros.
Por lá ficam os maiores e mais bonitos palcos da cidade e carregam pra cima e
pra baixo os grandes musicais da Broadway. Um dos musicais que vi e gostei muito
foi o Million Dollar Quartet, no Apollo Theatre. Os nomes Elvis, Cash, Lewis e
Perkins estampados em dourado pelos ônibus e taxis da cidade me fizeram correr
pra lá. Quando chegamos no teatro, numa esquina estranha, meio de terreno
abandonado, bem debaixo das ferrugens da red line, eu não dei nada pro negócio.
Mas aí é que tá: são nessas ocasiões que a gente se surpreende. Quando passamos
pela bilheteria, ao invés de subirmos escadas, descemos. E era uma estrutura diferente
de palco, onde os artistas ficavam no meio de um semi círculo, mais abaixo que
a platéia e pequeno também. Era possível ver o olhar dos atores, sentir a
potência da voz nas canções, se sentir parte da história. Naquele dia eu revivi
os tempos de Sun Records e viajei à Memphis na noite em que o quarteto gravou
uma das maiores relíquias da música cowntry.

Única foto que tirei do musical Million Dollar Quartet, no Apollo Theatre
5 – Fountain of Time – A escultura histórica
Criada por Lorado Taft, em 1920 e dedicada ao
tratado de paz entre os EUA e a Grã-Bretanha, a escultura fica no sul de Chicago, numa área meio deserta, diga-se de passagem. O sul é predominantemente dos negros na
cidade e é aí que vc consegue enxergar a segregação racial ainda existente na
América, por mais que criemos suposições de que muitos preconceitos e paradigmas
foram quebrados na sociedade. O sul mostra uma realidade diferente...e ao
contrário do alvoroço turístico em volta da Buckingham Fountain, no meio do
Grant Park, a Fountain of Time mostra o tempo-pai de capuz, olhando pela
humanidade em massa (são 100 criaturas, dentre elas um auto retrato do
escultor, nas mais diversas feições). Sabe aquela coisa velha e feia que é
linda? Linda por motivos que vão muito mais além de estética e restauração? Então...
As 100 criaturas que compoem a humanidade na Fountain of Time
O tempo-pai de capuz, olhando pra humanidade, na Fountain of Time
6 – Green Mill – O bar
preferido do Al Capone
Eu gosto de lugares envoltos de histórias e
lendas. Pois bem, pra mim o Green Mill guarda muitos segredos e muitas
histórias. Primeiro que ele era o bar que Al Capone mais frequentava numa época
em que Chicago era tomada por gangues e era considerada a cidade mais perigosa
dos EUA, segundo que além de Al, era o point de muitos atores e atrizes dos
teatros da redondeza. Reza a lenda que existe uma malha de túneis em baixo do
bar que fazia parte do esquema da máfia de bebidas alcoólicas no período da lei
seca. Dizem que eles ainda estão lá...De qualquer forma, o estilo do bar me
ganhou por completo. As luzes, a caixa registradora (ainda em uso), a galaxy
200 (uma espécie de jukebox de mini vinis com uma abertura de vidro onde vc
consegue enxergar a troca mecânica dos discos) cheia de clássicos do jazz, o
letreiro em verde no fundo do salão refletindo no espelho atrás do bar, o
piano. Cada detalhe faz valer a pena cada segundo vivido ali, num bar jogado em
Uptown, que ficava a 5 estações de onde eu morava.

A espécie de jukebox de mini discos, no Green Mill
A caixa registradora do Green Mill, ainda em funcionamento
O letreiro no fundo do salao do Green Mill
7 – Northerly Island –
O skyline perfeito
Apesar de ter um nome de ilha, é possível
chegar de ônibus lá e fica a menos de 10 minutos do centro. É lá que fica o
planetário e também uma mini estação da Nasa onde cientistas montam na grama
telescópios gigantes só pra mostrar pra quem está por ali a lua, saturno, cinturões
na via láctea. Se é possível ficar melhor, vire de costas e vc vai enxergar
o skyline mais fascinante da face da Terra. Sério! Eu vi algo parecido em
Toronto, com a diferença que a Toronto Island é bem mais distante da orla do
que a Northerly Island, então o skyline de Chicago fica bem mais próximo de
vc. Os prédios parecem ser maiores, mais luzes, muitos reflexos na água do lago
Michigan...Quando sentei pra fotografar aquela vista, me perdi. Eu tirei meia
dúzia de fotos e me encontrei encarando aquelas luzes na minha frente sem ver a
hora passar. “Eu tô sentado dentro de um cartão postal...”
O skyline de Chicago, visto da Northerly Island.
Parece foto do Google, né?! Eu que tirei!
Eu e o Dré, com o skyline atrás...
8 – Promontory Point –
Uma outra vista do skyline
De longe, vc avista pequenos prédios gigantes.
É isso. Andar pela orla do lago Michigan, cheia de pedras enormes. Naquele
dia que fui com o Ikaro o lago estava nervoso, eram muitas ondas batendo nas
pedras, até parecia mar. Uma ou duas bicicletas andando por ali, o sol, um
campo de flores amarelas.
Uma outra forma de ver o skyline, do Promontory Point.
Uma das cenas de High Fidelity também foi filmada aqui,
quando John Cusack conhece uma de suas namoradas.
O campo de flores amarelas...
9 – Old Town – O distrito
da música
É possível encontrar boa música em toda parte da
cidade, mas Old Town abriga um negócio interessante: a Old Town School of Folk
Music. Eu e o Ikaro fomos dar uma xeretada lá dentro e ficamos bobos. Uma
escola de música que recebeu concertos exclusivos de Jimmy Driftwood e Josh
White...Lindo sentar nas mesinhas e ver o movimento dos estudantes chegando com
cellos, violinos, banjos...
Além da escola, por ali ficam duas lojas de
música bem fodas: Andy’s Music e Chicago Music Exchange. A Andy’s é uma
portinhola que vc entra e vai se perder nas pequenas saletas de espelhos
separadas por tipo de instrumento musical. Tem até um porão com uns
instrumentos exóticos. E a Chicago Music Exchange é meio que um shopping center
de instrumentos musicais misturado com livraria. Sessões de guitarra, violões,
baterias...sofás disponíveis para vc fazer o test drive nos instrumentos ou simplesmente
passar o tempo. Salas com isolamento acústico pra um test drive mais apurado e
pros fãs da barulheira. No subsolo, uma oficina de luthier...bagunça, poeira de
madeira, cheiro de instrumento musical, equipamentos estranhos.
Sessao de banjos na Andy's Music, em Old Town
Escada de espelhos que dava pro andar subterraneo, na Andy´s Music
Sessao de guitarras na Chicago Music Exchange
Oficina de luthier no subsolo da Chicago Music Exchange
Quadro do evento comemorativo de 50 anos da Old Town School of
Folk Music, com autógrafo do Jeff Tweedy
10 – Statue of the Republic – The golden lady survives to the great
fire
Essa estátua foi construída para a famosérrima
World’s Columbian Exposition. Vi muitas fotos da estátua no sítio da feira, que
ocupou a área do Jackson Park, no sul da cidade. A estátua original sucumbiu ao
incêndio que tomou a cidade em 1896. Em 1918, uma réplica foi colocada no lugar
original e lá ela está até hoje. Um símbolo da sobrevivência, do renascimento,
perante à imensa destruição. O barato é olhar as fotos antigas, chegar num
lugar totalmente diferente hoje e imaginar o tamanho da destruição e a força da
reconstrução. Uma energia incrível.
Statue of the Republic, ao pé do Jackson Park, no sul de Chicago
Chicago foi pra mim um centro de crescimento
intensivo. Eu aprendi a amar cada canto daquela cidade que me recebeu da melhor
forma possível. Eu me descobri como pessoa, sozinha, o meu, minha rotina, meus
passos. Aprendi a construir as coisas à minha maneira, saber que eu posso e que
melhor que poder, eu amo a minha maneira.
Mas acima de tudo, voltei amando, percebendo e
valorizando cada cantinho do Brasil, de São Paulo, de São Bernardo. Do meu
lugar. Essa é a parte mais linda de morar fora do país: reconhecer sua terra
como as pessoas que vc ama, aprendendo a conviver com seus defeitos e amando
ainda mais cada virtude. Mas esse assunto...esse é tópico pra outro texto =)
Em uma das passagens do Chicago River, as bandeiras de
Chicago, do estado de Illinois e dos Estados Unidos