Antes de começar a ler esse post (se tiver alguém que lê, se não tiver serve pra me lembrar daqui alguns anos), dá um play! Agora seja feliz e caminhe por entre minhas breves palavras sobre encontros.
Outro dia estava no Tupinikim, onde fotografo várias bandas todo santo domingo e a Bruna me perguntou que tipo de som eu gostava de ouvir. Acho q eu demorei uns 5 minutos pra responder. Me passou várias coisas pela cabeça e por algum motivo eu não me contentei com a minha resposta. Eu acabei falando que ouvia de tudo, que meu gosto musical era feito de fases e que ao longo dessas fases eu curti diferentes estilos e isso reflete demais no que eu gosto hoje. Até mesmo pq eu não consigo deixar de gostar de uma música que eu já gostei muito. Eu posso ouvir com menos frequência e sentir coisas diferentes, mas as músicas sempre carregam um apelo sentimental tão grande pra mim que é impossível eu desvincular nostalgia das músicas que eu já gostei muito um dia.
Pois bem. Hoje enquanto eu voltava do laboratório eu me fiz a mesma pergunta, depois de ouvir umas cinco vezes "Andorinha só" e depois colocar na rádio e cantar de cór e salteado uma música do Bon Jovi. Hoje nada me encanta mais que o encontrar. Eu não consigo pontuar o tipo de música que eu mais ando ouvindo nos últimos tempos, mas consigo pontuar artistas. E esses artistas estão a maioria envoltos em encontros. Encontros desses, esbarrados, não planejados. Igual cena de filme quando a mocinha esbarra no mocinho derrubando todos os livros no chão. Um suave encontro de mãos...um encontro de olhar, de sorriso. Pronto, apaixonei.
Foi assim que conheci o Benjamin, que com todo o seu talento ainda me trouxe mais bagagem emocional que eu poderia esperar, foi assim com o Emblues Beer, com o Mustache e os Apaches, com o No caos a graça e com a Ive Seixas.
Foi num domingo que amanheceu num dilúvio que um pic nic tinha tudo pra dar errado. Mas mesmo assim a gente enfiou as caras e foi. Afinal, eu queria muito fotografar um encontro musical cercado de toalhas xadrez, flores e suco de laranja. Ela estava lá sentadinha do nosso lado, cabelinho curtinho, toda quietinha, tinha um jeito fácil de lidar, quinto olho na nuca, pés descalços rachados pela sua liberdade, afinal ela é a Andorinha só. O sol tomou conta das toalhas, depois de molhado o chão pela tempestade matinal que acordou a gente aos trovões.
Eu percebi que ela ia cantar só quando pegou o violão pra grudar dois papeizinhos pra se lembrar da ordem das músicas. Ela levantou e consigo levantaram também as nuvens cinzas que tinham ido embora quando chegamos no parque. A chuva caiu com gosto e migramos pro palco coberto como refugiados. Ali, todos eram artistas. No mesmo palco, descalços a dançar ou quase cochilar com a cabeça encostada nas mochilas que trouxeram os lanchinhos e blusas de frio.
A voz da Andorinha é linda daquelas que conforta, que te faz ver como a vida bonita. Sabe quando a Elis te faz sorrir? Assim, só de ouvir "como nossos pais"? Tipo isso. A chuva caía atrás dela e fazia uma cortina pingante que ia refletindo o céu cinza, combinando em contraste com as bandeirolas de letras P-I-C-N bordadas nas cores amarela, azul e vermelha, penduradas nas estruturas do teto do palco pixado num abandono triste, vazio. A voz dela fazia jus à tinta colorida no rosto. Rosa, azul, roxo, verde, amarelo. Descia da testa até as bochechas de um lado e no canto da sobrancelha do outro.
"Quem com ferro fere o coração, rouba as andorinhas do verão...e andorinha só não faz canção..."
O vento trás, o vento leva.
A vida se encarrega.
Viva os encontros!

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