Viajantes

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Que tamanho tem meu mundo?

Mais uma vez relendo os posts deste blog e ainda chego na mesma conclusão: tudo muda. Até bermuda. Desde sofrer por amor, das prioridades da vida, do meu olhar perante a sociedade, do meu papel aqui nesse plano, nos nossos papéis um na vida do outro, até o tamanho que eu enxergo meu mundo. Cara, como eu mudei. Cara, como as coisas mudaram.

E isso é interessante. A mudança sempre é bem vinda, dá dinamismo ao ambiente. Os novos ares te refrescam as lentes, levam a poeira velha e trazem novos ciscos pra empoeirar os cantos. Essa poeira? Parece tão poética pra mim. Parece até uma casinha antiga, daquelas com móveis de madeira que deixam aquele cheirinho de casa velha, que só de sentir remete a nostalgia da história e energia que elas carregam. Casinha antiga com janelinhas de madeira pintada, tacos de madeira também, vários badulaques na mesinha de centro e muitos porta-retratos no aparador da sala, indicando o bisavô, o bisneto, o tio, o sobrinho, o pai, o filho, a moca grávida, o cachorro e o gato, a criança na bicicleta. Às vezes uma noiva, um noivo, um vaso de flores, tapete colorido, um sino dos ventos, a vitrolinha no canto com um apanhado de discos. A brisa leve na janela aberta virada pra rua, onde os grandes artistas trotam pelos paralelepípedos a recitar poesias em forma de canção, empunhando um violão surrado até alguma viela, onde eles podem esperar pelos outros membros, trovadores, que ali se reúnem para mais um sarau do improviso, do destino, os quais os ventos trouxeram para o beco dos artistas. 










Todos trovadores são bem vindos, cada um com um pouquinho da sua composição. Trovador argentino, paulista, paranaense, mineiro, cearense, que já viveu na França, no Canadá, em Manaus. "O que vc é?" "Eu? Como assim oq eu sou? Eu sou o Rafael", um dos trovadores que puxavam o bando, um rapaz que parece um gnominho e outro de um paletó colorido de roxo, amarelo, verde, vermelho, de chinelos trocados, tocando um didjeridoo sentado na grama de um campo cercado de barracas e uma fogueira mirrada no centro. No meio da noite, é possível ouvir os estalos do fogo, um grilo, uma cigarrinha, ao fundo do som do instrumento maluco que mais parece evocar sons da terra dos duendes e da floresta encantada do que emitir som próprio, conjuntamente com o violão surrado que veio do beco dos artistas, que parece até ter uma corda a menos e o braço empenado. O dedilhar nas cordas não deixa a desejar, emite sua poesia na forma mais pura de seu trovador. Ele toca Zeca Baleiro e sua solidão "maior que a de um paulistano". No gramado, em meio a alguns troncos de árvore, os trovadores se aconchegam, outros observam um pouco mais atrás, todos eles juntos, naquele pedaço de terra que parece ser desligado da via láctea. E deve ser mesmo. No alto se vê um milhão de pontos azuis celeste de diferentes tamanhos numa miscelânia de roxo escuro e azul marinho. Essa deve ser a via láctea vista de fora.







Gente reunida, samba raíz, brasileiro? Todo brasileiro sabe sambar. Escreve isso aí. Nasce com o negocinho na ponta do pé e nem sabe. Ora ruas de paralelepípedo, ora ruas de terra batida com pedregulho, igreja ao fundo, com a parede pintada suja de lodo, suja de terra, suja de tempo, marcada de história, assim como a casinha. O badalar das horas, a cruz no topo, a sombra fresca à sua frente com o raios de sol projetados às suas costas. Raios de sol vermelhos, céu laranja no horizonte, que aos poucos se dilui no liquidificador de roxo e azul. Se olhar lá de baixo, é possível ver as casinhas uma ao lado da outra, emparelhadas, um degrau acima da outra, formando um escadão numa ladeira. Acho que é a escada que leva pro topo do novo mundo. Reza a lenda que quem sobe até o fim, enxerga a Terra de lá. Será que a Terra é bonita vista de fora? Isso é pergunta de imigrante. Os nativos nem precisam saber se a Terra existe.



Mais uma noite e novas vozes se ouvem, "a tempestade que chega é da cor dos teus olhos...", eles vão chegando. Os trovadores não combinam dia, não combinam hora. Seu compromisso é o seu próprio destino. Pergunte a um deles onde o outro está. "Nao sei, muita coisa já aconteceu...". O destino faz os ventos levarem seus passos pros becos que se abrem para recebê-los. Os ventos se encarregam de levá-los na mesma direção.



Quando comecei a escrever essas linhas não sabia onde elas iriam dar. Com a alma de trovadora, o destino levou minhas palavras até lá. Para os terráqueos, esse mundo tem o nome de Ouro Preto e fica num estado chamado Minas Gerais. Pescamos nosso cometa no dia 28 de dezembro de 2013 e depois de quase 12 horas de viagem pelas galáxias escuras e estreitas das estradas de Minas, encontramos o mundo paralelo de Joaquim José da Silva Xavier e seus trovadores inconfidentes. O mundo explorado pelo colonialismo português e seus escravos, o mundo do ouro, da revolução, da luta, da coragem, da arte e da música, onde cravei um pedacinho de mim.