Mas aí é que na quarta-feira a noite depois da novela passou aquele filme "Última Parada 174". E eu nunca tinha assistido. Foi aí que começou a história daquele negócio do q eu eu tinha parado e não tinha voltado mais.
Eu fico muito estalada nesses filmes brasileiros que tem muito palavrão e carniçagem. É fogo.
Mas tudo começou há uns 3 anos atrás, pouco mais até.
Eu estava na casa da Simone. Simone é psicóloga há tempos já e na época ela estava acho que no segundo semestre do mestrado, mais ou menos, na PUC. Todas as vezes que eu ia na casa dela, ela fazia um suco doido pra mim. De limão rosa, de uva (dessas verdes ou roxas, de verdade), de lichia...e a gente tomava suco na varanda que tem na frente do quarto dela pra conversar. As nossas conversas eram deliciosas. Era um papo que não tinha fim. E o mais gostoso era conversar sentado na poltroninha olhando praquela frestinha de céu que sobrava por entre aquele monte de árvores da chácara até anoitecer, quando ia ficando friozinho e subia aquela névoa de pé de serra.
Mas todas as vezes que a gente conversava ela trazia coisas novas, algo que tinha visto na tv, um filme, uma música..e eu, sempre levava algo pra ela tb. E a gente conversava, conversava, dava risada...
Até o dia que ela disse que tinha um documentário da PUC que ela queria que eu visse e queria saber o que eu achava. O documentário se chamava "Ônibus 174".
E eu me lembro o quanto chocada eu fiquei, foi algo tão inesperado, me fez pensar em coisas que antes nunca tinham passado pela minha cabeça. E aquilo ficou guardado. Muita coisa aconteceu.
Me lembro de um dia, tempos depois, devo ter feito um post no flog disso, eu estava no centro de São Paulo com a Tamy e um mendigo parou na minha frente e olhou pra mim. Eu parei e sorri. Ele retribuiu o sorriso. E depois ele pegou minha mão e beijou ela. Depois foi embora. Lembro como a semana toda eu me lembrava do que tinha acontecido e meus olhos se enchiam de lágrimas. Até hoje me arrepio de lembrar.
Depois de mais um tempo levantamos uma discussãozinha no Mackenzie sobre como ajudar quem precisa, sobre os mendigos, sobre crianças de rua. E tudo o que eu ouvi foi que as pessoas boas ajudam como podem. DE LONGE, COM DINHEIRO. E depois eu ouvi: "É claro, vc nunca sabe o que eles são capazes de fazer com vc. Vc tem que ser esperto, ele te rouba, ele te mata".
E eu sabia e sentia que as coisas não são assim. É muito mais além. Mas eu me senti impotente no meio daquele bando de "reacionários" num mundo que só eles vivem. Seria inútil falar. E mesmo que falasse, eu pensava comigo mesmo e parecia que a minha teoria não era completa. Era meio como se um círculo não se encontrasse na outra ponta do traço.
E na quarta-feira eu assisti o filme e me deu uma vontade louca de ver aquele documentário de novo. Era 1h da manhã e eu tava lá baixando ele pra assistir.
Quando eu assisti foi meio que imediato. Na hora a ponta do meu círculo encontrou a outra e ele se fechou. Ele ficou completo.
E aí eu me pergunto: Socializar?
Eu chorei muito depois de ver o filme e o documentário. É triste demais. É angustiante, é revoltante. E mais ainda é quando a gente se dá conta que a sociedade é cega pra td isso. E daquele cego que não quer enxergar.
E a cegueira é tanta, que faz crítica àqueles atos que cegamente ela é conivente.
É preciso mudar.
É preciso PENSAR.
A sociedade está rica em conhecimento, nunca houve tantas pessoas qualificadas, tantas universidades, tanto estudos e avanço tecnológico. Mas POBREZA EM SABEDORIA.
POBREZA EM VISÃO.
E o mais triste é pensar que nessa imensidão de mundo, com tantos governos, tantas revoluções e lideranças, nada foi feito quanto a isso. Pq poucos são os que enxergam essa verdade, essa realidade.
A parte do documentário que mais me chocou dizia mais ou menos assim:
"Os meninos invisíveis [os sandros]. Invisíveis, pois eles não são vistos, não fazem parte da sociedade e nós fazemos com que eles sejam invisíveis. E então, eventualmente eles submergem do submundo e quando nós os vemos, nós negamos a sua existência, pois queremos que eles sejam invisíveis.
Nós não queremos enxergá-los, e a polícia é quem faz o trabalho sujo. Aquele trabalho que nós queríamos fazer e não temos coragem."
Dói mais ainda saber que esse "nós", somos nós mesmos. A nossa família, nossos amigos.
Pouquíssimos aqueles que conseguem e sabiamente lidam com isso.
Bravos aqueles que tem peito, que tem coragem e humanidade suficiente pra tocar algum projeto que tenha realmente alguma eficiência, mesmo que com poucos.
Impotência.
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