Ontem meu pai quebrou uma parede do meu quarto pra passar um conduíte até a outra parede. Eis que meu quarto ficou cheio de pó e eu, com a garganta ruim há sei lá quantos dias, resolvi que ia dormir na sala com ele.
Meu pai e minha mãe estão dormindo num bicama na sala, desde que eles vieram pra cá, enquanto a reforma da chácara não fica pronta.
Se tem uma coisa q eu puxei do meu pai é a mania de dormir com a tv ligada e de ver tv até tarde. Então nada mais justo do que eu e meu pai dormirmos juntos na sala e minha mãe no quarto com a minha vó. E a tv toda minha e do Giuseppe ;)
Eu sempre fiquei triste ao pensar que eu e meu pai poderíamos ser mais presentes um com o outro. Mas certas circunstâncias da vida nos fez assim. A gente é distante em algumas coisas, mas em outras somos tão ligados que não dá nem pra explicar. Mesmo me vendo pouco, ficando pouco tempo comigo, não sabendo das minhas necessidades, dos meus problemas, das minhas vontades e do meu plano de vida, meu pai é a pessoa que sempre vai me dar um abraço qdo eu preciso, sem pedir. Ele é quem faz carinho na minha cabeça toda vez q eu sento do lado dele, ele que diz q me ama sempre, que chora vendo "de volta pra minha terra"...hauhauhauau, é ele que pega água pra mim na cozinha, era ele que ia comigo fazer xixi qdo eu tinha medo de levantar da cama à noite, que virava a tv pra eu ver melhor qdo a gente morava em mococa e eu via a tv que tava no quarto dele do meu próprio quarto. É ele que nunca ia nas festinhas de escola e que não passa o dia do meu aniversário comigo, não lembra de comprar presente, não passa o dia dos pais ou das mães com a gente, vive trabalhando e viajando, me faz passar muita raiva com os causos do Mike, me descabela com a falta de atenção e com o relaxo em casa, com a bagunça e a sujeira q ele faz. Mas é ele que me levantava à noite pra me cobrir qdo o edredon caía no chão. E não cobria pq ele levantava e via, era pq eu sentia e chamava. E ele vinha.
E ontem quando eu deitei do lado dele, ele me cobriu de novo e fez carinho na minha cabeça pra eu dormir. E acordou a noite toda pra ver se meu pescoço tava coberto só pq eu tava tossindo. E de manhã, ele ligou a tv e eu acordei, fiquei naquele acorda não acorda com o som do jornal. Qdo eu acordei de vez, ele me cobriu de novo, me deu um beijo e falou pra eu dormir até mais tarde, pra eu melhorar. E saiu pra trabalhar.
E essa sensação de ver o jornal junto com ele é uma coisa que me faz bem. E todas as vezes q eu me lembro de algo de bom que meu pai possa ter feito por mim são coisas assim. São os carinhos, os beijos, os cafunés, aquele olhar. Aquele olhar.
Eu sei q ele é já é velhinho e que pode ser que ele não veja eu me casar, que ele não veja eu ter meus filhos e não possa dar esse carinho todo que ele me dá pros netinhos dele que um dia eu vou ter. Mas eu nem quero pensar nisso, pq se tem uma coisa que eu queria que meus filhos tivessem era essa sinceridade do olhar dele. O choro lá de dentro, o carinho das mãos duras e cheia de calo e graxa embaixo da unha, os beijos bigodudos...
Te amo, pai.
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