Viajantes

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Malas prontas

Eu me lembro quando a gente se conheceu, no laboratório. Eles nao falavam nada de português e eu nao entendia lhufas de espanhol, mto menos do espanhol q eles falavam, daquele jeito meio esquisito. Eles nao entendiam nada do que eu falava e nem eu o que eles tavam falando, mas logo de cara a gente se acostumou a ficar junto e a se entender. A professora me colocou pra acompanhar o trabalho deles, antes de eu entrar no mestrado e ter o meu próprio projeto, logo eles comecaram a fazer aulas de portugues e a gente comecou a acostumar com aquele sotaque e até fazíamos algumas sessoes de vocabulário, que incluiam, é claro, todos os personagens de desenho animado imagináveis.
De pouquinho em pouquinho a gente foi compartilhando nossas vidas, nossos problemas, as alegrias, a saudade das namoradas e da família, almocar junto virou hobby diário, escolher o presente das namoradas juntos também, matar a lombriga no restaurante japonês, quebrar a rotina jogando um boliche a tarde, ir pra paulista, por aí, ficar trabalhando juntos até 8, 9, 10, 11 da noite...comer pizza e mcdonalds no laboratório...pizza? a melhor pizza do universo: philadelphia II e mexicana, comprar sanduíche do subway pro alejandro, ir no banco tarde da noite (pq afinal, que maluco vai no banco da usp tao tarde? Trombadinha nem espera)....

De repente eles nao eram mais o Alejandro e o Nicolás. Eles eram o Malejandro e o Nicomala, e eu nao era mais Jacqueline, nem a Marcela, a Marcela....eu era a Maleline e a Ma, a Malacela...e mais tarde, Marcélula. Todos nós mudamos um com o outro, com certeza eles foram pessoas que deixaram muitos pedacinhos de si em mim, nos meus pensamentos, nas minhas formas de enxergar as coisas, no olhar, no carinho, no amor que a gente criou entre a gente. Nós formamos os malas...os mala sem alca, que só enchem o saco, que fazem manha, tem preguica, que arrasta um o outro pra cima e pra baixo e se apoia nos momentos felizes e principalmente nos momentos tristes...e olha, que foram muitos.

E todas as vezes um está lá pra dar nem que fosse um olhar e uma xícara de chá, um chocolatinho pro outro.  ..pra olhar os camundongos um do outro no biotério, pra xingar falando que ta fazendo tudo errado, pra dar bronca pq deixou tudo baguncado, pra pagar o almoco pro outro quando um nao tem dinheiro, pra aguentar a comida do bandeijao nas vacas magras, pra fazer um desenho na lousa pra descontrair, pra dar um abraco, pra perguntar certo e a gente poder responder falando o que a gente queria mesmo falar, pra ir junto pro hospital, pra ficar preocupado, pra mandar email assustando todo mundo falando que levou um choque na tomada e quase perdeu a mao, compartilhar sites piratas, mostrar as musicas que a gente mais gosta um pro outro, cantar no meio da rua, ir jogar tênis, correr, tomar vinho, fazer cupcakes, inventar de fazer churrasco, ir em shows de rock, formar caravana pra ir na fapesp só pq tem uma dona deôla la do lado e aproveitar pra almocar e comprar bolo de bem casado, pra zoar o meu carro e o jeito q eu dirijo, pra nao cansar de reparar nos dias que eu estou vestida de "menina" e ainda mais pra dizer um "oooooi, tudo bem?", seguido de vários "eu preciiiiiiiso", "ii agora?", "noooooooooossa" ou "ela é lôôôôuca", fazer qualquer coisa "em pelotas", usar sunga branca e querer fazer bico de go go boy na despedida de solteira da Carol. Eles estavam la pra gritar e fazer auê no dia que eu quase fiquei sem roupa na festa do departamento, eles tb tinham seus dias de tpm no mês...e sem contar na tentativa frustrada de me arrumar "paqueras".

E agora eles simplesmente terminam o trabalho deles por aqui e vao embora. Vao embora e me levam tudo isso aih. Tudo isso e mais...mto mais. Eu nao consigo imaginar que eu nao vou ter o Male pra eu encher o saco pra ir nos shows comigo e nem o Nico pra eu pedir pra me trazer água geladinha (mesmo q ele nunca traga). A falta que eles farao vai de um tamanho que nao tem como medir, nao tem como quantificar intensidade. Eu sei que tudo o que eles tem esta lá, no Chile, mas o maior desejo que eu tenho é que eles vao e consigam olhar pra trás e lembrar de alguém que os ama muito, que os tem como bons amigos, daqueles amigos que é difícil de se conquistar. E por mais que eu entenda que vê-los será algo difícil, pois a distancia e a grana, querendo ou nao, irao decidir muito mais que minha vontade de nos unir de novo, eu sinto que por mais que eles vao embora, eu nao sinto um abandono, nao é definitivo, nao é um corte no laco, é só um breve adeus.

E eu só queria registrar o quanto é grande o sentimento que nasceu por eles. O quanto é pura a alegria diária que eles me trazem, o quanto eu vou sentir falta do sorriso, do olhar...

Malinhas, eu amo vcs.

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